Já é Inverno - Terapia de Casal
Saindo da minha grande companheira - A Cama - e sendo um sonambulo consciente, percebo que estou em uma praça solitária, andei quase meio quilometro, não notei o que estava ao meu redor, mas como não é a primeira vez que faço essa estranha caminhada, acredito que atravessei uma avenida enorme e devo ter acariciado um cachorro preto de orelhas altas que apelidei de Dumbo. Nessa avenida tem um carro abandonado com insulfilme muito escuro, da medo. Toda vez que passo por ele distraído levo um susto ao ver meu reflexo.
Eram quase quatro da manhã, o sono estava forte, mas não consegui dormir direito. Parecia que a cama e eu estávamos brigados, se for isso mesmo, deve ser porque nesse último mês eu mal dormi em casa. Tento explicar (o que é estranho), mas parece que não me entende. Sou paciente, porém essa noite foi muito complicada, deitei-me por volta das onze da noite, viro pra lá, viro pra cá, ponho o travesseiro na cabeça, pé, barriga, rosto e nada... Quando já não aguentava mais, cochilei, sim, cochilei. Não sei o que houve, passou uma hora e acordei de novo. Então pra tentar resolver essa situação, levantei, coloquei uma roupa mais quente e fui andar quase dormindo pra esvaziar a mente.
Sentei no banco e quase dormi ali mesmo, mas a garoa que se iniciou após eu sentar me manteve acordado. Comecei então a pensar na minha vida, no meu trabalho, nos meus estudos, na dor que a uma semana não me deixa jogar vôlei de praia, nos meus sonhos e particularmente, na minha amável cama.
Eu estava muito distraído, viajava em meus pensamentos. De repente, ouço um estalo repetitivo provocado por um panfleto batendo em uma lata de refrigerante. Era um vento fraco, mas com a mesma persistência do estalo. É até esquisito, mas me chamou tanto a atenção que levantei da posição confortável que eu estava, dei exatamente seis passos curtos e peguei esse panfleto. Quando eu li o que havia escrito nele comecei a rir, tive um ataque de risos enfadonho (tadinho dos vizinhos)... No panfleto dizia "Terapia de casal".
É tão engraçado como tudo ao nosso redor condiz com nossos sentimentos, nossos sonhos ou até nossos desejos.
Não sei o que houve, mas quando sentei novamente acho que o banco da praça não me queria mais ali, o banco acolheu os doze graus daquela boa madrugada e esqueceu de mim. Ao chegar em casa, olhei para o céu e agradeci, sim, agradeci pela chuva fina que tanto embeleza as montanhas, que tanto da vida ao verde dos campos, que tão livre purifica as almas necessitadas.
Entrei troquei de roupa, coloquei o panfleto em cima da cabeceira e tive o melhor sono de todos os tempos, dormi perfeitamente bem, mas hoje, nesse exato momento, na cadeira de minha escrivaninha, questiono: Será que era isso que a minha Cama queria então, ficar um pouco sozinha ou fazer uma terapia de casal?
(Escrita no dia 21 de Agosto de 2015)
- Carlos Coutinho
06 de Maio de 2016
Entrei troquei de roupa, coloquei o panfleto em cima da cabeceira e tive o melhor sono de todos os tempos, dormi perfeitamente bem, mas hoje, nesse exato momento, na cadeira de minha escrivaninha, questiono: Será que era isso que a minha Cama queria então, ficar um pouco sozinha ou fazer uma terapia de casal?
(Escrita no dia 21 de Agosto de 2015)
- Carlos Coutinho
06 de Maio de 2016


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