Já é Inverno - Recado do Pescador

Ao observar o mar como foi feito ontem, pude ver um barco, um barco qualquer, com seus equipamentos de pesca já ultrapassados, seu navegar sereno e a suposta calma de um pescador em voltar para casa depois de noites ausentes da simplíssima casa onde moram os seus dois filhos e a sua esposa.
Quem poderia imaginar que através daquele humilde pescador, pode ter se passado tantos eventos e participado de tantas mudanças na já antiga cidade que têm o nome de Vitória. Eu no topo daquele mirante, pude ter o privilégio de ganhar três horas  que talvez nunca mais terei, três horas que com o passar do tempo transformou-se em lembranças, recordações, passado, realizações.
Esses encontros são dignos de ser escrito nessa folha, assim como o homem em respirar.
Dediquei meus olhos naquele minúsculo barco voltando para casa, sempre tive curiosidade em saber como é a vida em alto mar, então logo quando ele pisou no solo - solo esse rico em cultura, em história, solo esse onde foi construído fortes para se proteger dos ingleses, holandeses, solo esse onde viviam os tupiniquins protegendo-se dos canibais das tribos vizinhas, solo esse onde tenho orgulho de pisar e pisar - e deu um suspiro que só aquele já envelhecido pelo mar, pode entender.
Fui então ao encontro daquele senhor, homem simples e de sorriso largo, puxei papo com ele perguntando se pegou muito peixe, o que acabou me surpreendeu. Ele sorriu, contraiu as rugas da testa deixando assim uma expressão clara de homem-criança, separou os lábios ressecados pela maresia e disse com uma voz leve e calma, calma e leve que nem se quer uma rede direito, apenas alguns pescados. Apresentei-me e falei um pouco de mim - senti essa necessidade - na qual ele mais tarde me retribuiu com sua história  e seu nome, um simples, mas nobre homem chamado Devanir.
Fiquei grato pela simpatia e educação daquele nobre "cidadão-primo" de uma cidade tão linda como essa ilha, e antes de ter dado as ponderações finais de uma conversa prazerosa e satisfatória com esse desconhecido, com nome agora de Devanir... não pude deixar de perguntar: Por que o senhor está feliz e calmo mesmo depois de dias e noites dedicado a uma pesca mal sucedida??
Então  esse mais uma vez digo, nobre homem, me respondeu:
"Porque faço o que amo, não é uma profissão muito valorizada, mas é o meu sonho, o que me ensina a todo momento, o que alimenta a todo instante minha alma e corpo,  o que melhor me descreve, um homem realizado."
 Essa crônica dedico a esse simpático e simples homem que me ensinou tanto com poucos minutos de conversa. Essa conversar tenho certeza absoluta que recordarei para sempre.
Caro Devanir, obrigado, você que era um desconhecido me vendeu algo muito nobre, a força de lutar pelo meu sonho.

Carlos Coutinho
17 de Setembro de 2015

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