Já é Inverno - Caneca Sortida

Às vezes questiono se me apego muito a detalhes, pelo menos reparar eu reparo; é engraçado pensar que próximo ao Correios sempre têm um vendedor ambulante com barba grande e sorridente – todo dia.
Percebi recentemente que sempre procuro a mesma cadeira de ônibus – até quando está batendo sol – notei também que não importa o horário, sempre vejo uma senhora com uma sacola na mão olhando para todo mundo no ônibus, sempre têm uma mãe com um filho, a mãe rindo e o filho o tempo inteiro perguntando, e claro, sempre aparece um vendedor ambulante. Falando nisso, ontem me deparei com um a caminho de casa, ele tinha uma voz ligeiramente aguda e meio afeminada, ao ouvi-lo comecei a rir, mas logo depois me recompus pelo fato dele ter ficado triste – deve ter vergonha da própria voz – para confortá-lo comprei alguns doces que ele vendia e antes que ele descesse, disse: “a vida é mais bela sorrindo”; ele agradeceu e desceu do ônibus sorrindo. Foi um momento legal, me senti bem vendo o sorriso daquele homem de meia-idade e rugas parcialmente visíveis renascer após minha curta frase de inspiração.
Aquele sorriso me fez recordar uma música linda, não lembro o nome dela, sei que é MPB, sei também que consigo sentir as mesmas emoções de quando ouço ou penso nela. Essa emoção é idêntica a quando eu ganhei no bingo – a propósito a única vez – uma caneca azul com bolinhas brancas de plástico; tirando a da UFES, é a que mais durou comigo sem quebrar, sumir por conta própria ou abduzida, sei lá, desaparecia sem eu nem perceber, só assim para melhor justificar.
É tão bom lembrar, recordar momentos que anteriormente foram bons. A paz que sinto é tão bela quanto o sol se pondo entre duas montanhas de alturas e cores diferentes... Me conforta, me alegra, me faz vivo.
...
Lembrei da música!
O nome dela é Samba da benção de Vinicius de Morais; nela ele diz uma frase linda: “Porque o samba é a tristeza que balança, e a tristeza têm sempre uma esperança, a tristeza têm sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não”;
É linda “né”?!
Por essa música ser tão pura eu me apaixono mais e mais pela vida. A vida é mais bela sorrindo, quando estiver triste, viva o simples, não que perca a esperança, ela é essencial em nossa caminhada.

Lembrei que escorado na janela eu pensava em um sorriso diferente, ele era tímido e escandaloso ao mesmo tempo, esquisito e maravilhoso na mesma extensão... Eu vivia alegre tendo ele ao meu lado todas as noites, até que um dia não pude tê-lo, depois tudo mudou, a tristeza me dominou, me fez me sentir mal, mas sabe, só tenho a agradecer, graças a ela minha fé renasceu, voltei a lutar pelos meus sonhos, voltei a ouvir MPB, samba de raiz, regional, enfim, boas melodias sobre a vida.

Hoje a tarde o sol fazia do ônibus uma sauna, mesmo eu sentado no seletivo o calor reinava, o ar condicionado quebrou – Uma ironia no Inverno – eu só queria fazer uma coisa agora, voltar meio quilômetro atrás e comprar uma garrafinha de água na banca de jornal, em frente ao Correios, próximo a um homem sorridente, feliz, um homem que não sei o nome, mas aposto que têm uma caneca azul, não precisa ter bolinhas, só o fato de ser de plástico e azul já me fará feliz, um sonho vivo encontrar uma pétala de lembrança daquela duradoura caneca sortida.
(Escrita no dia 02 de Setembro de 2015)

– Carlos Coutinho
09 de Maio de 2016

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