Já é inverno: Lembranças de uma Gaita

Três puxadas de leite e uma queda de cavalo. Sim! Era um tempo que por dúvidas achei que tinha esquecido.
Eu era um menino de muitos momentos. Lembro da primeira vez que comi uma fruta, suguei a polpa em ritmo desacelerado, apertei minha mão para conquistar meu desejo momentâneo, senti o macio da fruta e tive certeza que era meu. Sabe, me lembro  de quando reconheci a dor como inimiga de minha vida - foi um queda linda - fui correndo pra abraçar meu pai ao me buscar na escola. Só pra constar, me lembro da minha primeira vez que fui fazer uma apresentação de trabalho e saí correndo para o banheiro, chorando, assustado, com vergonha dos outros da turma olhando pra mim... Eu era muito tímido.
Sempre temos uma primeira vez pra tudo, pra falar, pra andar, dançar, nadar, andar de bicicleta, sentir um gosto, uma dor, uma perda, há uma primeira vez pra tudo, sempre há.
Sabe, sinto falta de tanta coisa.
Queria continuar a tocar gaita, levar queda de cavalo como um hábito anual e livre de regras, apenas uma surpresa bem vinda.
Obrigado avô! O senhor me ensinou a ser homem antes mesmo de eu perceber que eu teria que crescer um dia. Meu pai foi um grande professor da vida, mas você, ora, ora, foi meu mestre nos meus cinco anos. É triste pensar que você foi a pessoa( uma das únicas) que eu amei na minha família de parte de mãe. O excesso de álcool te destruiu, mas sem ele você era O Cara.
Vislumbro um dia que eu estava deitado na rede e o senhor na cadeira ao meu lado, me balançando devagar, parecia que assim como eu, você não queria que a hora passasse. Consigo lembrar o vento fazendo risadas forçadas, porém em vão - eu estava agasalhado. O senhor assobiava, baixo, sereno, curto, era como se quisesse passar despercebido; o tempo era de longas, divertido como seu olhar, me alegrava muito tê-lo.

Não sei porque, mas eu ria bastante - as vezes fico pensando seriamente se minhas bobagens eram vícios desde o início da minha infância - do senhor... Sempre viam surpresas, nessa calma lembrança, um borbulhão de pensamentos me cercaram. Pra rotas de palavras curtas vieram essas:

- Gosta de música?
- O que é isso? Respondi.
- É simples meu filho, é uma emoção a cada segundo. É um "sonzinho" que te faz dançar, que te alegra e entristece. Vou te mostrar.

Créditos de Imagem: Olimpia Piumbini
Numa velocidade fora do comum, meu avô levantou e foi fazer alguma coisa dentro de casa.
Quando voltou, ele chegou com um objeto pequeno e até um pouco engraçado, sentou na rede - me deixando mais alto - e começou a tocar. Sinceramente achei muito engraçado o som que fazia,  mas na verdade se eu fosse tentar encontrar uma música com um som parecido eu escolheria Roadhouse Blues da banda The Doors.
Foi a primeira vez que ouvi uma música boa na qual eu possa recordar, o vovô após terminar de tocar deu um sorriso tão feliz que me deixou muito alegre.
Ele perguntou o que eu achei, disse que que era engraçado e estranho o som, ele me viu sorrindo, então deve ter percebido que eu gostei.
Foi ali, naquele dia que tive minha primeira aula de gaita.
Esse velho e risonho Luiz "Pindoba" faz falta. Não tenho muitas lembranças com ele, mas as poucas que tenho são uma das melhores da minha caminhada vida. 
Fico triste em pensar que ele se foi por causa da bebida e do fumo, mas só de pensar que quando ele estava sóbrio me ensinava tanta coisa divertida e que levo pra vida toda, fico feliz.
Há um ano atrás, fui procurar um livro do Arturo Torres Rioseco nas minhas coisas e quando estava prestes a desistir encontrei uma gaita velha, linda e desafinada, mas que me fez chorar de saudades.
Eu senti a ponta dessa lembrança no reflexo de algo velho, velho como essas palavras que resgato de um desabafo, velho como as rugas do meu mestre nas horas sóbrias. 
Pude chorar de leve, igual uma folha caindo de uma árvore; Chorar silencioso, igual uma rua deserta; chorar rindo, igual quando escorreguei ao mesmo tempo que meu amigo na varanda da casa dele (ele deu um grito de mocinha - Saudades de você Angelo José); chorar pingos lentos, como se estivesse começando a chover; chorar lembranças boas, sim, igual ele rindo, igual as três puxadas clássicas que ele dava na teta da vaca pra beber, igual a rede que ele balançava com calma, igual a uma queda de cavalo.

Carlos Coutinho
17 de Agosto de 2016

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