Já é Inverno: Flores Roubadas
Flores Roubadas
Dormi bem hoje. Sei disso porque acordei muito cedo, era por volta das 05:30 da manhã. Da minha janela é preciso esticar o pescoço para o ver o nascer do sol. Acordar cedo é bom, meu bom-humor me domina por completo, o café é feito com mais carinho, o banho é mais lento, o pão é mais quentinho, o dia é mais proveitoso - tudo fica lindo.
Ontem meu dia foi cansativo, tive altos e baixos, não fiz muita coisa, porém não dormi - passei a madrugada em claro - o sono me abandonou nesse dia tão exaustivo; eu precisava descansar, mas meus afazeres me impediram de tal proeza.
Nesta noite fiquei perdido na embriaguez felicidade que eu tive, acordei muito bem, sorrindo naturalmente, dormi pensando na Sol, na crônica que ela me pediu para escrever. Eu estava tão cansado que o sono me cobriu por completo nessa madrugada, por isso não escrevi antes.
Acordei tão bem que se eu pudesse pegar um trem agora, iria ao Jardim Botânico, Rio de Janeiro, só para contemplar as maravilhas daquelas vidas verdes que há naquele lugar, há outras cores, mas o encantar daquele verde tão vivo é extremamente lindo e puro. Lá realmente têm vidas mais coloridas, porém o que mais me encanta nessas "vidas Coloridas" não são as cores, e sim o perfume e a maciez das flores.
Falar sobre isso me fez recordar algumas das minhas loucuras mais bem planejadas; estava eu a caminho de casa quando reparei no jardim do meu já antigo vizinho. Lá havia muitas flores, uma mais bonita que a outra, fiquei encantado. Infelizmente nessa casa tinha um cachorro, ele não era nem um pouco amigável. Tinha decidido que algumas mudas de flores do jardim de meu vizinho seriam minhas. Passei uma semana observando a casa - e o cachorro - até que um dia comprei um osso bem suculento e grande e fui a casa em uma noite vazia, não havia ninguém, os donos saíram para um churrasco de amigos. Peguei o osso e joguei dentro do terreno, no outro lado da casa, oposto ao jardim. Subi na parte do muro onde haviam menos espinhos e entrei no jardim, peguei umas dez mudas de flores e saí antes que o cachorro sentisse a minha presença - foi fácil e bem planejado - sai totalmente feliz com aquele quase buquê nas mãos.
Aquelas flores destinei as primeiras mulheres que eu vi - no caso, minha mãe e minhas irmãs - mas se eu tivesse uma, só uma dessas tão belas flores roubadas, daria agora para a Sol que nesse instante que escrevo deve estar ouvindo música e conversando com alguém, uma outra alma qualquer que aprecia a sua risada, essa mesma risada que vai dar ao ler essa crônica, essa mesma risada que junto com a minha é única, perfeita combinação de elegância, beleza, naturalidade e felicidade louca.
O sol dessa manhã estava tão lindo que cheguei a pensar em pegar um trem e ir até ele, mas é impossível, o sol está a quase 150 milhões de quilômetros de distância de mim, além disso aqui não tem trem e mesmo se tivesse, o máximo que eu faria mesmo é pega-lo e ir tomar um café da manhã com a Sol, só para diverti-la com as lembranças daquelas lindas flores roubadas que inclusive foram roubadas por mim em uma estação que amo muito, o inverno.
Carlos Coutinho
13 de Julho de 2015

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